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Jun 12
publicado por aipotu, às 03:16link do post | comentar
Em Portugal albergam-se actualmente dois tipos de pensamentos: os relacionados com a crise e os de cariz financeiro. Na realidade o problema é o mesmo mas a palavra crise já criou uma imagem de marca e o grosso da população entende que crise é crise e finanças é outra coisa.

Fala-se muito em mercados, em agências de notação, em termos económicos tais como estagnação ou boletins orçamentais. Qualquer noticiário, jornal ou síntese radiofónica português fala hoje mais de tutelas de Finanças estrangeiras do que em Vítor Gaspar. A Grécia inunda hoje o dia-a-dia de Lisboa de tal ordem que qualquer pessoa atenta sabe já umas palavras em grego só de ouvir o noticiário. Seria interessante verificar um vox-pop daqueles que a Sábado as vezes faz, questionando as pessoas sobre este tipo de coisas....

No futebol confunde-se desporto com guerra fria e todos os jornais, incluindo os ex aliados franceses de Sarkozy, tentaram reeditar no Alemanha vs Grécia a epopeia dos 300 espartanos emprestando, ironicamente, qualquer coisa aos gregos.

Qualquer português sabe hoje que esta em crise, que se vivem tempos difíceis onde a contenção é basilar e elementar. O que a maioria dos cidadãos nacionais desconhece é que tudo isso significa menos dinheiro, menos possibilidades de futuro e a hipoteca nacional por várias décadas e entidades estrangeiras. No fundo estar em crise acaba por ser simpático. Pois se a maioria dos jovens que continuam a frequentar cursos universitários sem possibilidades de sucesso tivesse a noção daquilo a que vai seria mais locus horrendus. Para além disso, se Portugal fosse uma região onde a crise fosse uma crise financeira duvido seriamente que não fosse feito aqui aquilo que já foi feito na única região do globo que ate agora conseguiu compreender que estava em crise financeira: a Islândia.

Em Portugal não: aqui podemos ser todos corruptos internamente, mas la fora honramos os nossos compromissos com a Troika. Por ca podemos todos tentar o nosso tacho na politica, ainda que tenhamos zero qualidades para ser deputados ou outra coisa qualquer que de garantias financeiras. Mas la fora honramos os nossos compromissos. Isso é que é importante enquanto a classe média tiver dinheiro para suportar austeridade.

Não interessa se o Serviço Nacional de Saude deixar de fazer jus ao próprio nome. Tampouco é relevante se o desemprego aumenta ou se os mais qualificados jovens de sempre deste pais vão dar o seu contributo intelectual a outros povos. E sabe o leitor porque? Porque la fora honramos os nossos compromissos. De gravata, fato Armani e Mercedes SLS. Tudo isto porque a União Europeia é isso mesmo: livre circulação. E nos honramos os nossos compromissos com estilo. E se correr mal vamos tirar finalmente um curso em Paris. Com estilo pois Paris é Paris.

BdR

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