27
Jun 12
publicado por aipotu, às 02:33link do post | comentar

 

Um dia José Saramago escrevia assim: Nunca jogues as peras com o destino que ele dá-te as verdes e come as maduras. O título do livro em que o Nobel português escrevia fez jus as varias politicas conduzidas durante demasiados anos, por demasiados políticos em demasiados casos.

 

Portugal sofreu o síndrome típico e clássico de qualquer Estado que passa, abrupta, inesperada e em breves momentos sem preparação, de um regime fechado em si mesmo, sem liberdade e com uma economia quase feudalista a outro, cheio de liberdade, boas intenções e onde o capitalismo passa a vigorar como a certeza de prosperidade para todos aqueles que antes não podiam estudar, almejar um emprego de escritório ou uma televisão a cores e farta comida na mesa.

 

Nessa época, no pós 25 de Abril, Portugal transformou-se num El Dorado interno, tendo em Lisboa a pepita mais preciosa e invejável. O Estado, que antes ignorava, passou a proteger os cidadãos garantindo-lhes Saúde, Ensino ou Cultura gratuitos e proporcionando, assim, reais capacidades para todos puderem alcançar o Portuguese Dream.

 

O Estado empregava, o Estado protegia e ajudava os mais desfavorecidos e o Estado era o pai, a mãe e os avos de todos os seus filhos e netos. Incluindo todos aqueles que regressavam de antigos terrenos entregues aos nativos dessas regiões.

 

De 1974 a 2012 aprendemos que pouco se soube aprender com o exemplo de prosperidade, o que acaba por ser irónico na medida em que hoje é fácil e ate recorrente denominar as áreas das ciências sociais, as que estudam tais matérias, como dispensáveis do Ensino pela sua falta de empregabilidade. Aquilo que os sucessivos governantes portugueses foram esquecendo é que compreender o passado é fulcral para analisar o presente e entender o futuro. Os ingleses vivem assim desde sempre com o sucesso e estabilidade que lhes são, salvo raras excepçoes em tao vasta historia, reconhecidos.

 

Dessa forma o Estado gastou o que tinha. Primeiro fê-lo em prol de uma carência que a ditadura prolongou por demais, o que se compreende numa primeira fase, e depois talvez o tenha feito por acomodação, comodismo e/ou facilitismo. Quando o Estado deixou de ter o que gastar a Europa chegou-se a frente e os loucos anos 90 continuaram. E quando o Estado deixou de ter o que gastar do que a Europa lhe havia emprestado começaram os loucos anos 2000.

 

Agora pagamos todos a factura de tao leviana forma de vida e chamamos-lhe Troika, ou trium viriato no caso de Paulo Portas.

 

BdR


26
Jun 12
publicado por aipotu, às 03:16link do post | comentar
Em Portugal albergam-se actualmente dois tipos de pensamentos: os relacionados com a crise e os de cariz financeiro. Na realidade o problema é o mesmo mas a palavra crise já criou uma imagem de marca e o grosso da população entende que crise é crise e finanças é outra coisa.

Fala-se muito em mercados, em agências de notação, em termos económicos tais como estagnação ou boletins orçamentais. Qualquer noticiário, jornal ou síntese radiofónica português fala hoje mais de tutelas de Finanças estrangeiras do que em Vítor Gaspar. A Grécia inunda hoje o dia-a-dia de Lisboa de tal ordem que qualquer pessoa atenta sabe já umas palavras em grego só de ouvir o noticiário. Seria interessante verificar um vox-pop daqueles que a Sábado as vezes faz, questionando as pessoas sobre este tipo de coisas....

No futebol confunde-se desporto com guerra fria e todos os jornais, incluindo os ex aliados franceses de Sarkozy, tentaram reeditar no Alemanha vs Grécia a epopeia dos 300 espartanos emprestando, ironicamente, qualquer coisa aos gregos.

Qualquer português sabe hoje que esta em crise, que se vivem tempos difíceis onde a contenção é basilar e elementar. O que a maioria dos cidadãos nacionais desconhece é que tudo isso significa menos dinheiro, menos possibilidades de futuro e a hipoteca nacional por várias décadas e entidades estrangeiras. No fundo estar em crise acaba por ser simpático. Pois se a maioria dos jovens que continuam a frequentar cursos universitários sem possibilidades de sucesso tivesse a noção daquilo a que vai seria mais locus horrendus. Para além disso, se Portugal fosse uma região onde a crise fosse uma crise financeira duvido seriamente que não fosse feito aqui aquilo que já foi feito na única região do globo que ate agora conseguiu compreender que estava em crise financeira: a Islândia.

Em Portugal não: aqui podemos ser todos corruptos internamente, mas la fora honramos os nossos compromissos com a Troika. Por ca podemos todos tentar o nosso tacho na politica, ainda que tenhamos zero qualidades para ser deputados ou outra coisa qualquer que de garantias financeiras. Mas la fora honramos os nossos compromissos. Isso é que é importante enquanto a classe média tiver dinheiro para suportar austeridade.

Não interessa se o Serviço Nacional de Saude deixar de fazer jus ao próprio nome. Tampouco é relevante se o desemprego aumenta ou se os mais qualificados jovens de sempre deste pais vão dar o seu contributo intelectual a outros povos. E sabe o leitor porque? Porque la fora honramos os nossos compromissos. De gravata, fato Armani e Mercedes SLS. Tudo isto porque a União Europeia é isso mesmo: livre circulação. E nos honramos os nossos compromissos com estilo. E se correr mal vamos tirar finalmente um curso em Paris. Com estilo pois Paris é Paris.

BdR

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