04
Mar 13
publicado por aipotu, às 06:16link do post | comentar


Existem duas formas de analisar a crise portuguesa: A política e a social. Se analisarmos a política, compreendemos que ela não é portuguesa mas sim mundial e concluímos, rapidamente, que o sul da europa é apenas a asa mais frágil de uma União que, desunida, fica agora à mercê da vontade de Berlim que, historicamente, apenas se une a si mesma. Mas se analisarmos a crise de um ponto de vista social, concluímos que Lisboa se transformou na filial de uma firma chamada Portugal.

 

Numa empresa, um gestor tem a responsabilidade de olhar para números e descobrir uma fórmula que permita manter sempre o seu negócio lucrativo. Quando assim não é, ele tem de defender os interesses dos seus accionistas e, como tal, corta na despesa - despede funcionários ou reduz salários, diminui orçamentos nos vários departamentos e corta na investigação, etc - a fim de garantir o chamado ponto de equilíbrio económico, o momento em que a despesa e os lucros se igualam, passando o produto a ser rentável. E isto é exactamente o que está a acontecer com Portugal. Quando uma empresa decide cortar no orçamento, tradicionalmente começa pelo Marketing e pelas suas demais áreas funcionais. Na política portuguesa isso chama-se Saúde, Estado Social e funcionários públicos. E a receita é igual em todos os países intervencionados pelo FMI o que, de forma assustadora, faz concluir que o capitalismo está a evoluir para uma nova liberalização de mercado: aquela que de tão liberal que é anula já a soberania de Estados e permite até que Estados não democráticos ou sequer capitalistas (africanos e asiáticos) passem a controlar algumas das principais empresas europeias e a dívida soberana dos Estados Unidos da América.

 

Isto tudo, porque um “pequeno” banco decidiu especular até à exaustão, ultrapassando largamente a curva de risco sustentável – aquela que define os limites máximos sustentáveis de endividamento de uma empresa – ganhando ao longo de vários anos milhares de milhões de euros com as suas operações bolsistas. Estou a falar do Goldman Sachs que, para quem não sabe, é o maior banco não comercial do planeta e vale 700 mil milhões de euros, que é o dobro do orçamento de França, por exemplo. Este banco de origem norte-americana não tem uma sede oficial, não tem logotipo e apenas trabalha para clientes muito específicos, como países ou empresas como a BP ou a Microsoft.

 

A receita especulativa que o Goldman Sachs criou com os seus pacotes de activos bolsistas era de tal forma rentável, que todo o mercado financeiro decidiu imitá-los ou comprar os pacotes do Goldman Sachs. Em suma, toda a gente especulou de tal forma que um dia o mercado acordou e todos perceberam que os seus activos financeiros já tinham um risco maior do que o valor total das suas próprias empresas. Resultado: falência. Excepção para a Goldman Sachs que entendeu primeiro o que se passava e vendeu os seus activos, que eram tóxicos, mas que o mercado ainda não sabia serem tóxicos a quem os quis comprar. No dia a seguir acordámos todos com a falência do maior banco comercial dos Estados Unidos e o resto… o resto é história.

 

BdR


arquivos
pesquisar neste blog
 
subscrever feeds
blogs SAPO